‘Achava que alcançava a outra janela, mas não alcancei’, conta babá que pulou do 3° andar de prédio para fugir da patroa

26 de agosto de 2021 at 16:24

Raiana Ribeiro da Silva, de 25 anos, contou que era agredida e mantida em cárcere privado pela patroa, em apartamento do bairro do Imbuí, em Salvador. Polícia investiga caso.

Por TV Bahia

26/08/2021 07h54  Atualizado há uma hora


Babá que se jogou de 3º andar de prédio em Salvador relata momento das agressões

“Quando eu vi o basculante do banheiro, aí eu tentei sair. Achava que alcançava a outra janela, mas não alcancei e me soltei. Fiquei pendurada em um ‘degrauzinho’ onde estende roupa, mas não alcancei a outra janela, me soltei e caí”.

O relato angustiante é da babá Raiana Ribeiro da Silva, de 25 anos, que na quarta-feira (25), em Salvador, se jogou do terceiro andar de um prédio, para fugir da patroa – identificada como Melina Esteves França – que agredia e a mantinha em cárcere privado, segundo relato da vítima. [Assista vídeo acima]

O caso é investigado pela 9ª Delegacia Territorial (DT/Boca do Rio). Segundo a Polícia Civil, a patroa foi intimada e será ouvida nesta quinta-feira (26). O G1 tentou falar com a mulher, mas até a última atualização desta reportagem, não havia conseguido contato.

Raiana sobreviveu à queda, mas sofreu uma fratura no pé. Ela recebeu alta médica ainda na quarta-feira, mas terá que ficar alguns dias sem sair da cama. Foi nessas condições que a jovem concedeu entrevista e relatou o ocorrido.

A jovem morava na cidade de Itanagra, a cerca de 150 km de Salvador, encontrou a vaga de emprego através de um site e mudou-se para Salvador. Ela contou que trabalhava havia cerca de uma semana no local, cuidando de três crianças, e que as agressões começaram após ela comunicar à patroa que queria deixar o emprego.

“Ia fazer oito dias hoje [que estava trabalhando lá], mas a agressão começou na terça-feira. Começou porque eu falei para ela que não dava mais para mim, que eu ia sair na quarta-feira. Aí ela falou: ‘Vou te mostrar, vagabunda, se você sai’. E aí começou a me agredir”, disse a jovem.

“Ela me batia, puxava meu cabelo, me mordeu. Várias agressões… Dava tapa”, detalhou.

Sem poder sair da cama, Raiana relatou todo o ocorrido — Foto: Reprodução/TV Bahia

Sem poder sair da cama, Raiana relatou todo o ocorrido — Foto: Reprodução/TV Bahia

Raiana destacou que, além de já estar querendo sair do trabalho, encontrou uma oportunidade melhor e, por isso, comunicou à patroa que iria sair.

“Eu já estava querendo ir embora e apareceu uma oportunidade melhor pra mim, e eu queria agarrar a oportunidade e pedi a ela para sair”, disse a babá, sem saber que a situação iria piorar na quarta-feira.

“Ela me trancou no banheiro ontem pela manhã, e foi quando bateu o desespero de fugir de alguma forma”, disse ela.

Foi neste momento em que, segundo a jovem, ela tentou sair pelo basculante do banheiro, não conseguiu acessar a outra janela e se jogou do terceiro andar.

Ela ainda revelou que não se alimentava direito na casa da patroa. “Desde terça-feira que eu não comia nem bebia água. Vim comer alguma coisa quando cheguei aqui, ontem de noite”, relatou a mulher.

Advogado de Raiana contou que, segundo ela, há câmeras em todos os cômodos da casa onde o caso ocorreu — Foto: Reprodução/TV Bahia

Advogado de Raiana contou que, segundo ela, há câmeras em todos os cômodos da casa onde o caso ocorreu — Foto: Reprodução/TV Bahia

O advogado Bruno Oliveira, que representa a babá, contou que o caso se enquadra no crime de cárcere privado, com agravante.

“É identificado o cárcere privado, onde no artigo 148 do Código Penal diz que privar alguém da liberdade mediante sequestro ou cárcere privado é detenção de um a três anos. Ainda no mesmo Código Penal, no mesmo artigo, parágrafo segundo, tem um agravante, que foi o que aconteceu com ela: se desse cárcere privado gerar-se sofrimento físico ou moral, a pena vai de dois a oito anos. É o que a gente vai requisitar para que a autoridade policial faça essa denúncia”, disse.

O advogado contou ainda que, segundo Raiana, o imóvel onde ela era mantida tinha câmeras em todos os cômodos, e que isso foi informado à polícia, para que eles requisitem as imagens dessas câmeras e as do condomínio.

Audios revelam aflição

Babá que se jogou no 3º andar de prédio pediu ajuda por aplicativo de mensagens

Antes de se jogar do terceiro andar do prédio, Raiana chegou a enviar uma mensagem de áudio pedindo ajuda aos familiares em um aplicativo de mensagens; ouça.

“Oh meu Deus, chama a polícia. Eu estou sendo agredida aqui. Estou sendo agredida aqui, nega, no trabalho, no Imbuí. Chama a polícia, chama a polícia, por favor, por favor”, disse.

Segundo a defesa de Raiana, ela conseguiu mandar o áudio para família com pedido de ajuda, mas depois o aparelho celular foi recolhido pela patroa. Os familiares foram até Salvador em busca da vítima e não conseguiram encontrar o condomínio.

“A gente começou a mandar mensagens para ela, mas ela não estava respondendo. Ontem eu tornei a ligar para ela, ela falou que a patroa estava perto dela e ela não podia falar”, disse a mãe da jovem.

Uma amiga de Raiana acrescentou que a babá contou que foi agredida com tapas e com uma colher de pau.

Babá se joga de 3° andar de prédio em Salvador; polícia investiga cárcere privado cometido

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Babá se joga de 3° andar de prédio em Salvador; polícia investiga cárcere privado cometido

Após o caso, o Sindicato das Domésticas afirmou que acionou a Superintendência Regional do Trabalho.

“Não é permissível mais, em uma época dessa, acontecer essas violências. Têm aparecido muito, durante a pandemia, casos de trabalhadoras que são obrigadas a ficarem confinadas no local de trabalho”, disse uma integrante do sindicato.