Da falta de teto para dormir a insegurança alimentar: o aumento da pobreza e vulnerabilidade no AM

11 de junho de 2022 at 13:52

A Crítica

Atualmente o Brasil possui 33,1 milhões de brasileiros sem ter o que comer. Já na região Norte a situação é alarmante, pois 71,6% da população possui algum grau de insegurança alimentarGiovanna Marinhogiovanna@acritica.com11/06/2022 às 08:30.Atualizado em 11/06/2022 às 11:19 (Foto: Gilson Melo)

(Foto: Gilson Melo)

Os dados das pesquisas confirmam o que está encancarado pelas ruas: a pobreza cresceu. Números mais recentes da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan) indicam que 33,1 milhões de brasileiros não têm o que comer.  Na região Norte a situação é alarmante, pois 71,6% da população possui algum grau de insegurança alimentar.

Uma dessas pessoas é a dona de casa, mãe de quatro filhos, Deydiane Kathleen, 32. Ela e o marido, moradores do bairro Jorge Teixeira, zona Leste de Manaus, foram vítimas de um golpe, onde os criminosos realizaram um empréstimo de R$ 10 mil, e, agora, veem a única renda da família, um salário mínimo, ter um desconto de R$ 600 todos os meses há quase um ano já que o valor é debitado automaticamente.

Enquanto não encontram uma solução com o banco, a família tem que lidar com o amargor da fome. No dia em que nossa reportagem foi até a residência deles, que fica nos fundos da casa do pai de Deydiane, a geladeira estava vazia e eles sequer sabiam o que iriam comer. 

“Está sendo muito difícil e no momento quando a gente almoça não janta, quando janta, não almoça tem dias que nós não temos nem o que tomar no café da manhã. Ainda mais a gente que tem filho pequeno e não tem nada para dar. A gente que é adulto entende, mas as crianças não conseguem”, declarou a dona de casa com lágrimas nos olhos. Sem emprego, e tendo que pagar cerca de R$ 600 por mês ao banco, Deydiane Kathleen precisou vender a botija de gás para conseguir alimentar os filhos por alguns dias (Foto: Gilson Mello)

Sem emprego, e tendo que pagar cerca de R$ 600 por mês ao banco, Deydiane Kathleen precisou vender a botija de gás para conseguir alimentar os filhos por alguns dias (Foto: Gilson Mello)

No momento, somente o marido dela tem emprego como auxiliar de serviços gerais. Desde que o filho menor nasceu e ela deixou o serviço de diarista, mas ajudava na renda familiar com a venda de brigadeiros pelas ruas da cidade. Porém, há alguns meses o fogão da casa parou de funcionar e o único dinheiro que entrava diariamente, cerca de R$ 40, usado para comprar comida, não existe mais.

O desespero por conta da fome é tanto que a botija de gás foi recentemente vendida para poder garantir alguns dias de comida na mesa. A ajuda agora vem dos vizinhos e de parentes, que nem sempre conseguem colaborar. A filha mais velha, de 16 anos, procura  emprego para ajudar nas contas. Por enquanto, a família  é beneficiária do Auxílio Estadual de R$ 150, mas ainda não conseguiu aprovação do Auxílio Brasil e está na lista de espera.

“Cada dia que a gente vai comprar algo no mercado está tudo mais caro. Compra um quilo de arroz hoje de três e pouco e quando vai amanhã está cinco. Meu filho toma ‘massa’ (mingau) uma lata é treze reais, tem dia que está 15. Estou aguardando o Leite do Meu Filho, mas eles falaram que só posso começar a receber quando receber o Auxílio Brasil. Eu estou precisando de fogão e uma botija e alimentos. Até a mochila das meninas irem para escola é compartilhada”, relatou. 

Com R$ 400

A situação não é diferente na residência da dona de casa, Lisomar Queiroz, 48. Há pouco tempo ela morava com a filha Maria Eduarda, 9 anos, nos bancos do Terminal 2, zona Sul de Manaus. Após o tempo de agonia, ela conseguiu acesso ao Auxílio Brasil, mas os R$ 400 são todos revertidos para o pagamento do aluguel de um quarto no bairro Grande Vitória, zona Norte. 

A reportagem encontrou mãe e filha às margens de um igarapé no bairro Educandos, zona Sul da capital, em uma missão: encontrar o ex-marido de Lisomar, pai de Eduarda, que vive nas ruas e foi visto pela região. Naquela manhã havia sido o primeiro dia de aula da menina, que atrasou o ingresso na escola por conta da pandemia e da situação rua. Devido à demora, Maria Eduarda está fora da idade-série.Cássia Rozária diz que em 2017 a estimativa era que 750 pessoas esavam nas ruas, somente no Centro da capital, e os dados já estavam defasados. (Foto: Gilson Mello)

Cássia Rozária diz que em 2017 a estimativa era que 750 pessoas esavam nas ruas, somente no Centro da capital, e os dados já estavam defasados. (Foto: Gilson Mello)

“Hoje foi o primeiro dia de aula da filha, que passou dois anos sem frequentar a escola por conta da pandemia. A gente não tinha como acompanhar pela internet e ela não tinha como assistir aula. Precisei ir ao Ministério Público e à Defensoria para que a minha filha pudesse estudar”, contou Lisomar.

A mulher tem um problema cardíaco recém-diagnósticado e há meses procura assistência médica para realizar o tratamento. Por isso a venda de doces ficou insustentável. Os alimentos chegam em casa somente com doações. Para fazer comida ela anda com um cantil onde armazena etanol doado em postos de combustíveis, uma prática arriscada. 

“Um dia desses quase taquei fogo na casa. Fui acender o fogo, mas o fósforo não apagou direito e foi fogo pra todo o lado. Chamuscou uma parte do meu cabelo. A minha filha que foi desesperada chamar os vizinhos. Se tu for lá em casa só vai ver água. Eu tenho geladeira porque a vizinha não tinha mais como pagar o aluguel e foi pra rua e vendeu a geladeira e o fogão por R$ 100 cada”, disse Lisomar.

Moradores de rua

A pobreza somada ao desemprego que atinge 11,5 milhões de brasileiros, empurra a população para as ruas. Dados mais atualizados da Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania (Semasc) mostram que o número de pessoas em situação de rua mais quase dobrou nos últimos anos. Em 2019 eram 275 e passou para 466 em 2022.

O número, porém, ainda está longe da realidade. A coordenadora da Pastoral do Povo de Rua, segmento da Igreja Católica que presta assistência a esse público, Cássia Rozária, diz que em 2017 a estimativa era que 750 pessoas estavam nas ruas somente na região do Centro da capital, e os dados já estavam defasados. 

Hoje, segundo ela, o número saltou para cerca de 2500, sem considerar outras zonas da cidade pelas quais essas pessoas estão se deslocando.

Com crescimento da população mais vulnerável, moradores de rua e famílias que não têm o que comer, os trabalhos desenvolvidos pela pastoral ficam sobrecarregados. Atualmente, são acompanhados pelos voluntários da Casa de Acolhida Dom Sérgio Castriani, na zona Centro-Sul de Manaus, 250 moradores de rua e 185 famílias em vulnerabilidade.

“A pandemia deixou claro que esse número vem se avolumando em diferentes segmentos e status sociais. Antes se pensavam que [a população de rua] era apenas adultos jovens, usuários de uma substância não-lícita, seja álcool ou drogas, que acaba caindo do vício e vai pra rua. Mas, hoje temos famílias inteiras com pais, mães e filhos que perderam vínculo empregatício, provedor da família, às vezes faleceu, a pandemia levou o provedor da família e eles não tiveram condições de se manter na casa de parentes”.

Amparo

A Cáritas, braço da Igreja Católica, que cuida do amparo aos mais pobres, percebeu esse aumento na procura da assistência durante as ações de distribuição de refeições em frente aos hospitais, para as famílias de pessoas acometidas pela Covid-19, os moradores dos bairros próximos também buscaram alimentos e ajuda. 

“Além dessas pessoas para qual estavam sendo destinados esses alimentos, a população ao redor começou a chegar. Eram moradores de rua e da própria comunidade próxima. A gente começou a separar para eles uma quantidade de alimentos para alimentar essas pessoas. E a gente percebeu que tinha muita gente que estava vindo sem alimentação”, declarou secretário-executivo da Cáritas, diácono Afonso Brito.Grupo Caritas, da Igreja Católica, tem tentado ajudar pessoas em situação de rua e vulnerabilidade (Foto: Gilson Mello)

Grupo Caritas, da Igreja Católica, tem tentado ajudar pessoas em situação de rua e vulnerabilidade (Foto: Gilson Mello)

Naquele período foram distribuídos, nos grandes hospitais, mais de 35 mil refeições e mais de 100 mil cestas básicas. Para tentar amenizar essa situação Arquidiocese Metropolitana de Manaus tem fortalecido as ações de combate a fome com a criação de cozinhas comunitárias em várias regiões. O que, infelizmente, conforme o diácono, não é o suficiente para atender tamanha demanda.

“Fora das campanhas não entra nada [de ajuda]. Precisamos de apoio e sempre buscamos ajuda também para fazer campanha e manter a quantidade de refeições nos dias que as cozinhas funcionam. Essas 9 mil toneladas [de alimentos] que foram arrecadas no pentecostes nós vamos direcionar para isso”, esclareceu. 

A Pastoral do Povo de Rua vive de doações tanto de fieis católicos quanto espíritas que também colaboram para as ações. Na Casa de Acolhida são oferecido banhos, roupas, kits de higiene e alimentação. Por meio desse acompanhamento são distribuídas 350 refeições aos sábados e domingos, com pontos na Igreja dos Remédios e na Catedral. 

Há atendimento de assistência social para encaminhá-los aos serviços que eles precisam como as internações aos dependentes químicos, encaminhamento para os albergues da Prefeitura, emissão de documentos e assistência médica.

Desemprego e a vida nas ruas

João Pinto, 48, foi uma das pessoas que perderam o emprego durante a pandemia e não teve outra opção senão morar na rua por não ter condições de pagar o aluguel. Ele ficou cerca de 6 meses nessa condição e narra a experiência traumática. 

“Viver na rua é muito ruim. Você não tem um banheiro, não tem um banho, não tem nada. Você anda com o básico do básico. Enfrenta sol, chuva, frio, fome é discriminado, principalmente quando é negro. As pessoas me viam com maldade. E a maldade na rua é 24 horas. E na rua você adquire isso para se defender para andar na mesma linha de quem já estava ali”, relatou. 

O abrigo só veio quando ele chegou à Catedral Metropolitana de Manaus. Agora ele tenta se restabelecer socialmente e espera conseguir uma casa para alugar com apoio da Pastoral do Povo de Rua. João até conseguiu um emprego em uma pizzaria.

A realidade do pizzaolo, no entanto, ainda é distante para o morador de rua André Katiwau, 45 anos. Natural de São Gabriel da Cachoeira, noroeste do Amazonas e veio para as ruas de Manaus quando a filha faleceu há cerca de quatro anos.  Apesar das dificuldades para se alimentar, ele afirma que não gosta de pedir dinheiro e vive do que consegue arrecadar com a venda de latinhas. 

Achamos André em uma cabana improvisada em um igarapé do Educandos, bem em frente uma unidade do Prosamim, dias após a morte de uma amiga que o acompanhava pelas ruas. Segundo ele, ela foi assassinada há cerca de uma semana. O morador de rua afirma que também já sofreu ameaças e foi agredido. André Katiwau vive atualmente em uma barraca improvisada no bairro Educandos (Foto: Gilson Mello)

André Katiwau vive atualmente em uma barraca improvisada no bairro Educandos (Foto: Gilson Mello)

“Eu trabalho. Eu pago porque eu não gosto de pedir. Eu acho isso feio. Até porque têm pessoas que pedem para [manter] o vício. Então, pra não receber certas piadas eu prefiro não pedir. Eu fiquei sem direção na vida e vim parar aqui, mas em nome de Jesus em breve eu chego na minha casa”, prospectou André.

Ação do Estado

O governo do Amazonas está realizando a expansão da rede de restaurantes populares como estratégia para combater à fome no estado e para isso foram investidos mais de R$ 20 milhões. De janeiro até abril, foram fornecidas 90,4 mil refeições e 10,9 mil litros de sopa em todas as unidades do Prato Cheio. 

Até o momento as unidades da capital estão situadas nos bairros Jorge Teixeira, Novo Israel, Centro, Alvorada, Parque São Pedro, Rio Piorini, Alfredo Nascimento, Bairro da União, Compensa, Parque Mauá e Riacho Doce.  Já no interior os municípios de Manacapuru, Autazes, Itacoatiara, Tefé, Barreirinha, Parintins, Rio Preto da Eva, Tabatinga, Maués, Iranduba, Borba e Humaitá possuem unidades.

A Prefeitura de Manaus concentra as ações de âmparo aos moradores de rua no Centro de Referência Especializado para Pessoas em Situação de Rua (Centro Pop) onde é provido  orientação e encaminhamentos a outros serviços socioassistenciais das demais políticas públicas que possam contribuir na construção da autonomia, da inserção social e da proteção às situações de violência. 

Lá a população também tem a acesso a espaços de guarda de pertences, de higiene pessoal, de alimentação (Café e Almoço), proporciona endereço institucional para utilização que serve como referência do usuário para a provisão de documentação civil e encaminhamentos para a rede socioassistencial.

O município atende ainda no Albergue Gecilda Albano, no Serviço de Acolhimento Institucional Amine Daou Lindoso (SAI Amine Daou) e em  cozinhas comunitárias.