Vacina: o que falta para o Brasil deixar de depender de outros países

13 de fevereiro de 2021 at 22:05

Incertezas em relação à chegada de vacinas contra Covid e dos insumos expuseram falhas da indústria nacional e do planejamento de pesquisas

Juliana Contaifer Metrópoles

13/02/2021 19:11,atualizado 13/02/2021 19:53Enfermeira preparam vacina para aplicar em idosos, em goiâniaVinícius Schmidt/Metrópoles

A pandemia de Covid-19 escancarou algo que os pesquisadores e a indústria nacional já sabem há anos. O Brasil é completamente dependente de outros países para produzir medicamentos e vacinas.

Se há algum consolo, não somos os únicos. Grande parte das nações precisa, em algum grau, de insumos e dos Ingredientes Farmacêuticos Ativos (IFAs) produzidos na China e na Índia. Durante a pandemia, esses países, detentores da tecnologia de produção, decidiram quem receberia (e com que velocidade) a vacina contra a Covid-19.PUBLICIDADE

A história de como chegamos a este ponto começa nos anos 1980. O Brasil produzia cerca de 50% dos IFAs consumidos no país (hoje, só fabrica 5%), e era autossuficiente na fabricação de antibióticos, por exemplo, suprindo o mercado nacional e exportando. A empresa Intex gerava boa parte das vacinas para abastecer o Programa Nacional de Imunização (PNI).

Porém, com a necessidade de um controle de qualidade mais rígido e de novas normas, a empresa decidiu fechar as portas. Para suprir essa falta, os laboratórios públicos foram favorecidos — com investimentos no Instituto Butantan e na Fundação Oswaldo Cruz, principalmente, o que acabou prejudicando a iniciativa privada. Além do custo alto de produção, as condições se tornaram desiguais, pois o governo compra preferencialmente de instituições públicas.

“No governo Collor, quando se abriu o mercado, a indústria local perdeu a competitividade de forma muito rápida. Não tivemos planejamento: abrimos, reduzimos tarifa de importação, nossas empresas tinham problemas trabalhistas, precisavam seguir a legislação ambiental e as regras da Anvisa”, explica Norberto Prestes, diretor da Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos.

Ainda segundo o especialista, “a China e a Índia criaram ambientes com pouca regulamentação e muito recurso, e houve um movimento mundial das indústrias, que se mudaram para lá”.

Nesse movimento, ficou muito mais barato importar tudo do que produzir em território nacional. As fábricas que o Brasil tinha se tornaram meros centros de envaze, sem capacidade tecnológica de produzir fórmulas.

“Vivemos o custo da ineficiência estatal. Em um primeiro momento pandêmico, importamos. O ideal seria que, dado o contexto e sabendo o quão danoso é não ter laboratórios qualificados, pensássemos em como o país gostaria de se reestruturar para ter a capacidade tecnológica necessária para responder a demandas agudas e cenários de escassez futuros”, frisa Paulo Almeida, diretor do Instituto Questão de Ciência.

Os Estados Unidos, por exemplo, também dependiam de cerca de 70% dos IFAs importados da China. Mas nunca houve congelamento de incentivo, e o país tem laboratórios de primeira linha que são capazes de responder a problemas urgentes como a pandemia.

Veja na galeria o registro do início da distribuição de vacinas para o país:

Os imunizantes são os dois primeiros aprovados no país contra o novo coronavírusFábio Vieira/Metrópoles

Ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, acompanhou distribuição dos imunizantesFábio Vieira/Metrópoles